quarta-feira, 2 de março de 2011

Linhas cruzadas



Celso discute em altos brados com a mulher, Laura. Ela duvida da fidelidade do marido e suas suspeitas aumentaram depois da última noite, quando ele chegou tarde, “com a roupa cheirando a cigarro e perfume barato”, as últimas palavras dela antes do telefone tocar. Celso atende.
- Alô?
- Celso?
- Ele!
- É Oscar, gerente do banco.

Celso faz uma careta, costuma fazer expressão de dor nessas ocasiões, coisa que sempre diverte Laura, mas dessa vez ela não moveu um músculo sequer do rosto. Ele começa a conversa: “Oi, tudo bem?” Mas logo diz “um minuto só” e larga o telefone para atender ao celular, que também toca.
- Alô.
- Celso, é Mauro. E aí, cara deu merda?

Ele larga o telefone assim que escuta outra insinuação da mulher.
- Eu sei muito bem o que você foi fazer lá...Você e aquele seu amigo que nem gosto de falar o nome...
- Mauro...
- Esse mesmo. Cadê ele? Por que você acompanha esse tipo de pessoa? Esse babaca é um irresponsável, Celso, é por isso que a Telma está quase separada dele!

Celso esquece os telefones, celular e fixo, senta no sofá, passa as mãos pela cabeça, respira fundo e começa a falar calmamente, em voz baixa e tom ameno.
- Eu já disse a você que não, não aconteceu nenhuma sacanagem nessa maldita festa. Eu não sei como a Telma e o Mauro estão, não os vi ontem e repito: só passei lá porque o pessoal insistiu muito, e queria ver a tia Lourdes, estava com saudades e ela ficaria sentida se eu não fosse. Aliás, nunca mais falei com o Mauro depois daquele dia em que estávamos todos lá, na casa dela. Quando foi mesmo?
- Olha, não vem com esse papo, essa conversinha mole que eu não vou cair não, tá? E tem mais, estou sabendo que a Mônica e a Marluce estavam na tal festinha de ontem. A Telma já tinha me alertado sobre essas piranhas!
- Você está completamente doida!

Celso praticamente ignora a última acusação e, com uma distinção britânica, pega o telefone celular de volta.
- Pode falar Oscar, o que você quer?
- É o Mauro, cara.

Ele se encolhe e tapa a boca com uma das mãos ao falar baixinho, mas com energia:
- Nossa! Dá um tempo aí, pô! Mas não desliga não, já falo contigo.

Joga o celular no sofá e pega o fixo.
- Alô, João Paulo, pode falar.
- Não é João Paulo, é Oscar.
Ah...desculpe, Oscar.

E se fazendo de esquecido, pergunta:
- Sobre o que falávamos?
- Sua conta está estourada.

A mulher solta outro impropério, lá do banheiro, tão alto que até o gerente do banco e o Mauro ouviram. Celso esquece os telefones e vai até o meio da sala.
- Por que não diz logo quem foi que me envenenou com você, Laura?
- Ninguém me disse não. Dá para ver na sua cara!

Celso sabia que ela falava assim para jogar um verde, desequilibrá-lo, arrancar uma confissão ou quase isso. Lembrava de quando chegou tarde do futebol por causa de uma esticadinha no churrasco da república das meninas e de tanto ela dizer que estava “na cara que ele tinha aprontado” acabou dizendo que sim, que tinha ido a um churrasco e tinha mulher lá, mas não se engraçou com ninguém porque era casado, amava a família e tal e essas coisas. Na verdade, nesse dia ficou tão bêbado que depois de certo tempo mal conseguia conversar na festa. “Dessa vez não serei tão ingênuo”, pensou.

Celso pega o telefone celular. Na verdade, começa a ficar meio atordoado.
- Ainda bem que você não desligou. Minha mulher está muito, muito desconfiada. Mas eu não posso cair...a coisa já não está boa, devendo no banco e tudo. Como é que eu vou para um hotel ou coisa parecida? Vou morrer na sarjeta!

A ligação é ruim. Ele nem ouve quem está do outro lado e fala sem parar.
- Quer dizer... não aconteceu quase nada, ficamos conversando, dei uma alisadinha nas coxas dela. Rapaz, que espetáculo! Mas não passou disso, sabe? Bem, depois que você saiu o bicho pegou, mas não tinha mais ninguém lá. Só eu, o Marcos e as garotas, certo? Olha, vou desligar. Minha mulher pode aparecer a qualquer momento.

Desliga e pega o telefone fixo.
- Oscar! Vou ver o que consigo para cobrir isso aí.
- Celso, acho melhor eu ligar em outra hora. Melhor, liga você para mim. Bateram alguns cheques na sua conta e o limite do especial estourou, é preciso cobrir. Mas pelo jeito, você tem algo mais urgente pra resolver.

Telma, que tinha pego o celular do Mauro por acaso e ouviu a história toda, a essa altura discava para o celular de Laura.

(*) Jornalista

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