segunda-feira, 5 de junho de 2017


À cidade pequena


Saio de férias e resolvo passar uns dias no interior. Quero esquecer que existe jornal, encontrar gente que não vejo há muito tempo, descansar. Ficar longe da Internet, rádio e televisão, na medida do possível.

A casa onde vivi permanece de pé. Quando deito no meu quarto e olho para o teto é como se voltasse no tempo. Antigas frustrações e alegrias misturadas a imagens difusas que surgem do nada, lembranças de situações agradáveis e desconfortáveis. Uma viagem a que me permito toda vez que tenho tempo de estar nesse lugar.

O gosto doce e amargo do existir se alterna na alma. Beijos e abraços imaginários, frases ditas num olhar. Uma lágrima brota no canto do olho. Sorrio e me sinto gente na solidão voluntária do quarto onde passei a infância e parte da adolescência. A ausência de meu pai e minha mãe ainda sentida, mas com o passar dos anos aprendendo a superá-la, escamoteá-la ao menos.

Quero desfrutar das coisas simples. Ser verdadeiro com poucos gestos, sem alarde. Evitar estardalhaço, rir dos pequenos equívocos, do inusitado que só aparece quando temos tempo e sensibilidade para perceber.

A cidade de pouco mais de 20 mil habitantes é alimento para a memória. De um lado, cadeiras na calçada, conversas noturnas na brisa fresca, as ruas de pedra. De outro, a vista da colina e o claro-escuro formado pelo verde do pasto molhado e a copa das árvores.

Deixo-me levar por uma preguiça mansa, que às vezes parece incomodar os apressados. Também os há na pequena cidade do interior e alguns são dignos de pena. Parecem procurar por algo que jamais vão encontrar.

Cavaleiro andante, visitante ocasional e inesperado, forasteiro e nativo. Confundo os bons observadores que já não me conhecem direito.

A vida segue, difícil, mas ainda permite intervalos. Viajar para uma pequena cidade onde se tenha um canto. E depois poder voltar para casa de alma renovada e sem vontade de mudar o caminho que escolhemos.

quinta-feira, 26 de março de 2015

SEGUNDA CHANCE





 Carlos tem um sono agitado naquela noite. Rosna, fala sozinho, vira-se de um lado para o outro. Abre os olhos de repente. Levanta-se e vai até a cozinha. No caminho vê um envelope embaixo da porta. Mesmo na penumbra abre e consegue ler o bilhete: “Favor comparecer ao Hemonúcleo Central. Urgente. O assunto é de seu interesse.”

 Ele está confuso. Tudo está confuso, o quarto gira. Diz para si mesmo: - Não deve ser...Não pode. (Vira a cabeça para o outro lado. ) Não pode ser...será?
Atrás dele parte da janela mostra o dia começando, clareando objetos no quarto. O relógio marca cinco e meia. Ainda está escuro o céu da manhã de junho. Ansioso, ele decide. "Vou resolver essa história hoje mesmo", pensou. Tomou banho, um café rápido e saiu.

O relógio na parede marca 7h30 min. Carlos está sentado ao lado de outras pessoas numa sala.  Na parede a placa diz - Hemonúcleo Central. Ao lado tem um calendário. Carlos tem o ar apreensivo. Põe a mão no queixo e sem se deter em nada ou ninguém, olha o vazio. Como num filme em flash-back, começa a se lembrar da ultima vez que estivera ali.

Foi há uma semana. Ele tinha um ar feliz e bem disposto. Ao contrário de agora, conversava com outras pessoas que tinham ido doar sangue, brincava com as crianças. Na vez dele, levantou-se e foi até o atendimento.
A atendente pergunta:  - Vai doar para quem?
Carlos diz que é para um amigo, o nome está na lista.
Ela volta a perguntar:  - É a primeira vez?
Ele: - Não. Meu sangue já circula nos outros - e ri, no que a atendente olha para ele sem achar graça.

A moça tem os olhos verdes – “morena lindíssima!”, pensou ele. Ela termina o cadastro e diz para Carlos se dirigir à sala de doação. Carlos agradece, tocado pela beleza da moça. Faz a doação, dura meia hora. “É rápido e até que não dói nada”, refletiu, satisfeito por ter ajudado um amigo. Uma enfermeira o ajuda a descer da cadeira. Coloca o esparadrapo no lugar da picada. Já de pé, é interceptado de novo pela atendente.

 - O senhor vai querer o resultado do teste para HIV?
Carlos se assusta um pouco.  - Como? (Pergunta, surpreso). A atendente, com tranqüilidade, complementa:  - Quem doa sangue tem direito ao exame de HIV gratuito. Fica pronto em uma semana.
Carlos aceita. - Sim, quero - disse, ainda que forçando convicção.

Ele abre os olhos, como que saindo de um sono profundo. O relógio do banco de sangue marca 8 horas. E ele ali, ainda à espera do resultado do exame na sala do hemocentro.

Voltou a mergulhar em pensamentos. Lembrou-se de Manu. Manuela era o nome da gata. Aquele quarto colorido. Uma  transa louca. Objetos pelo chão, Manuela grita, geme.
 - Vai meu garanhão! Carlos, você é demais! Ele tinha uma expressão tranquila. Manu ainda disse suspirando: - Não queria sair daqui nunca mais...
Lembrou-se da cara de assustado quando olhou para o bilau. A camisinha, aberta, estourada.

 - A porra da camisinha estourou! Ele diz em voz alta, as pessoas em volta olham para ele. Uma mãe puxa um garoto pelo braço e se afastam. Carlos recompôs-se, levantou e tomou um gole de água. A mesma atendente já não lhe chamava tanto a atenção. Foi até a mesinha no centro da sala e pegou uma revista. Retomou o lugar na sala de espera. De repente, fecha a revista e vai até o banheiro. Enquanto se olha no espelho, mexe os lábios, balbucia. Uma ansiedade ia tomando conta, o corpo esquentando, um tremor, o suor umedecendo as mãos, a testa. Uma sensação de que algo assustador estava por ser revelado. - Será? Mas ela parecia tão, tão... - Anda de um lado para o outro. A lembrança do corpo de Manuela a torturá-lo.
 - Não! Definitivamente.

Carlos volta ao lugar na fila. Levanta-se e vai até a atendente. Como se fosse penitência, mexe negativamente a cabeça ao mirar a bunda da moca. Pergunta:  - Vai demorar muito?
 - Só mais um minuto. (Diz a moca, e depois entra numa sala.)
 - Só mais um minuto! (Reclama. Depois vira-se para um homem que aguarda atrás dele e diz - Ela não tem noção do que significa um minuto para mim.

Ah! Vida que é tão cara! E recita o trecho de um poema de Fernando Pessoa. Com cara de assustado o homem do lado faz sinal de concordância, depois parece ter pena e também se afasta um pouco.
A moça volta com um envelope na mão. Abre sem fazer cerimônia e quando começa a ler o conteúdo, a vista de Carlos embaça. Ele desmaia, no que é socorrido pelas pessoas em volta.

Acorda num quarto de hospital. Pergunta ao médico:
 - Quanto tempo eu tenho, doutor?
O médico diz  - O bastante. Tem plano de saúde? Você foi atendido aqui mesmo, do lado do hemocentro e esse hospital é particular...
 - Não vou continuar meu tratamento aqui, doutor – disse Carlos, resignado. Além do mais, o senhor sabe que os planos de saúde não cobrem o tratamento dessa doença.

Carlos olha o médico fixamente, mas parece ter o olhar perdido, como quem já não tem esperança. O Médico diz: Como não cobrem? Você precisa fazer uns exames, mas todos são cobertos pelo seu plano. Carlos continua a se queixar - E os medicamentos, doutor?  Terei que arcar com eles de qualquer forma...
 - Isso realmente não tem jeito - disse o medico secamente, e já se dirigia ate a porta quando Carlos começa a chorar. O médico que ia saindo, se detém e olha a cena, incrédulo.

Carlos bate com os punhos no colchão e esbraveja entre soluços: Tudo culpa minha mesmo. Burro! Burro!
 - Não é para tanto...diz o médico.
Carlos completa: - Homem é tudo idiota mesmo. E ainda comprei aquela camisinha vagabunda... Eu a conheci na mesma noite, doutor. Nos demos muito bem e acabamos no apartamento dela.
Lembrava claramente dos amassos, a cena dos dois se beijando. Continuou a lamúria: Foi mágico...e trágico! Olha a minha situação agora! Ela também, mas podia ter me contado. Que vai ser agora.??.. (Chora)

A porta do quarto se mexe. Chega a atendente.  - Senhor Carlos?
Carlos enxuga o rosto, tenta se refazer.
A atendente diz: Seu exame de HIV... deu negativo. Quando o senhor vem doar sangue de novo?

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O pai dos pobres

* Por Marcos Alves


 


Era um cara popular. “Homem de carisma!” – garantiam os mais próximos. Apresentador de TV, fazia sucesso prometendo resolver os problemas dos humildes, dos “sem oportunidade, dos sem casa, sem-amor, sem-salário, sem-esperança”.

Atuava no varejo. Pinçava um desgraçado qualquer e o colocava diante das câmeras a implorar por ajuda, depois de destilar seu rosário de miséria, não ocasionalmente seguido de um choro incontido – tanto melhor para os números! Quando a “vítima” chora, aí é o momento de emendar um begezinho adequado, uma música bem triste para e-mo-cio-nar.

Se o convidado, ou convidada, começava a rir, reação natural pelo nervosismo de estar na TV, ao vivo, ele emendava: “É sem-vergonha!” – e o sonoplasta emenda outra música, agora com letra de duplo sentido, cheia de escárnio e palavrões.

Gargalhadas no estúdio – a claque era formada pelos técnicos, curiosos e amigos e parentes de convidados. Depois o apresentador muda de câmera e, em close (imagem fechada no rosto, quase um 3x4), pede silêncio. Vira-se para o convidado, agora em tom sério e com o semblante preocupado e pede para que ele relate o problema que o leva a procurar ajuda.

O miserável diz que está desempregado, a noiva espera uma criança para o mês que vem. Quer uma máquina de pipoca, um carrinho para trabalhar de ambulante. O apresentador ainda pergunta outras coisas antes de tecer um comentário fascista sobre a situação difícil desse “brasileiro sofrido”. Chama a atenção das autoridades, diz que isso não é possível, muda de câmera de novo e garante: vai resolver o problema do rapaz.

Termina o programa, o apresentador sai do estúdio sorridente. Com ar cansado diz que precisa ir embora rápido, tem compromissos importantes. Não vê a fila de gente esperando no corredor de entrada da emissora. Entra no carro, levanta uma nuvem de poeira antes de deixar o estacionamento e também não vê a outra fila, ainda maior, do pessoal que nem conseguiu entrar.

A audiência crescera geometricamente e o camarada faturava alto. Ele chegou dirigindo um carro velho, agora estava de camionete importada. Trocara também de apartamento, e “até de mulher” gostava de frisar. Vivia agora uma doce rotina de viagens, e despesas caras com roupas, restaurantes e hotéis.

Graças a um público fiel, sempre disposto a passar por uma ´humilhaçãozinha” para conseguir uma ajuda, se tornou o “Pai dos pobres”, diziam os fãs, alguns ali na fila interminável. “Vai atender a todos nós”, acreditavam.

“Será ?”, soprou uma voz fraca, no meio daquela gente toda. “Vai sim, ele disse que vai!”, respondeu uma defensora do homem, procurando saber de onde surgiu a dúvida. Veio de uma senhora sentada em uma cadeira de rodas, os braços finos, fracos, o rosto cansado e a alma desconfiada de tanta benevolência.

A necessidade de ter uma nova cadeira falou mais alto e lá estava ela, na fila. Era a terceira vez que vinha, em 2 meses, e ainda não tinha conseguido vaga na “Tribuna do Povo” – espécie de púlpito colocado no estúdio onde as pessoas falavam de seus problemas e faziam os pedidos.

Alguns meses passaram e a fila ficava cada vez maior. “Viu só aquilo?”, disse um produtor do programa. “Onde vai parar isso?”. “No topo, amigo. Só vai parar quando chegarmos ao topo”. A resposta foi dada pelo próprio apresentador, que entrou na redação depois de passar pelos pedintes protegido pelos vidros escuros do carro.

Mas a situação preocupava. A fila na porta da emissora não estava como nos outros dias. O atendimento era demorado e a maioria não ia ser atendida – nem se o programa ainda ficasse 10 anos no ar. Mas como comunicar isso àquela multidão?

O apresentador tem uma idéia. “Vamos amenizar o discurso, diminuir as doações. Depois a gente pensa em um novo ‘gancho’ para o programa, mas sem tanto assistencialismo, que esse negócio anda ficando muito caro. O empresário doa, mas depois exige merchandising e onde é que fica o meu? Cadê o meu?!”, falou, aos berros, como de costume.

Depois, continuou. “Saúde e emprego são problemas do governo. Se eles não dão jeito, a gente é que vai dar?” Vira-se para a assistente de produção e ordena: “Paula, vai lá fora e avisa que as inscrições foram suspensas por tempo indeterminado”.

A moça chega até o portão, mas nem consegue abrir a boca. As pessoas se jogam aos pés dela, mostram feridas, braços engessados, muletas, fotografias de pessoas convalescendo em leitos de hospitais, cartas mal-escritas, sujas e amarrotadas. Prestes a receber o diploma de jornalista, nunca esteve tão perto do desespero do povo brasileiro.

Paula não consegue cumprir a ordem e leva um esporro do apresentador. “Eu mesmo vou lá, não mando recado. Deixa comigo”, e saiu em direção ao portão da empresa. “Minha gente!” Não teve tempo de dizer a segunda frase, foi agarrado, puxado pela gravata, caiu no meio da rua. Ele também nunca havia sentido o cheiro do povo tão de perto.

Perdeu os óculos na queda, e teve uma visão embaçada das cartas, dos rostos, das mãos. Levantou-se, ajeitou os cabelos, a gravata, tirou o pó e levantou uma das mãos. Queria terminar logo aquilo. “A partir de segunda-feira, vocês não precisam mais vir aqui. Basta telefonar ou mandar um e-mail, peçam para seus filhos, sobrinhos, amigos... E dentro do possível, iremos atender a....”

De novo, não teve tempo de terminar a frase. Foi uma confusão total. Antes fiéis admiradores, as pessoas agora ficaram hostis, agressivas. O apresentador ao perceber que seus argumentos só aumentavam a ira daquela gente toda ergueu as mãos para a guarita, pediu ajuda dos seguranças. Mas todos estavam ocupados em proteger o patrimônio da empresa, no caso, os vidros da fachada ameaçados por paus e pedras nas mãos dos revoltosos.
Nada foi suficiente para convencer aquela gente a desistir. Os vidros foram quebrados, a sala de espera destruída. Um cenário de guerra: poltronas rasgadas, terminais de computador jogados no chão, pedaços de madeira, plástico e materiais usados em cenários, tudo espalhado, pisoteado, inutilizado.

“Essa gente não tem educação mesmo”. A boca costurada dificulta a pronúncia e a compreensão, mas os filhos e a mulher do apresentador entenderam a frase. Nem na cama do hospital, ele alterou o estilo.


terça-feira, 22 de maio de 2012



A última jornada



Era o último dia de trabalho! e Juvenal não se fez de rogado. Naquela segunda-feira, chegou atrasado, de zoação com os companheiros e esbanjando incomum bom humor (os colegas o achavam meio "carne de pescoço" no dia-a-dia).

Adiou a sensação de perda que fatalmente viria com o passar do tempo, enfiado dentro de casa e fazendo pequenos reparos domésticos. Afinal, foram décadas dirigindo os ônibus da empresa. A tão sonhada aposentadoria chegara. - Comecei com carroças, gostava de dizer. - Agora tá tudo um creminho..., frisava com ar de autoridade para os colegas mais jovens que certamente teriam de dar duro ainda por um bom tempo antes que, como ele, pudessem celebrar o derradeiro dia de labuta.

 Mastigava, desajeitado, um chiclete para disfarçar o cheiro de álcool. Tinha começado a festa cedo, antes da jornada que, naquele dia, apenas começava. Desceu a rua e na primeira curva entrou num poste.Saiu de maca, sob olhares assustados e com uma baita dor de cabeça.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Porta de cadeia




Um grupo de seis adolescentes é preso em Contagem, cidade vizinha a Belo Horizonte. Entraram em um ônibus com uma réplica de revólver, e levaram tudo o que os passageiros entregaram: celulares e o dinheiro do bolso. Teriam esquecido os relógios e cordões?

Permaneceram dentro do ônibus, queriam descer “em outro ponto”, relatou o motorista na delegacia. Algumas pessoas desceram antes, avisaram um carro da polícia e o ônibus foi interceptado e eles foram recolhidos (Na maioria das redações se proíbe escrever que um menor é preso, por ser ilegal, mas na prática... basta ver a garota de 15 anos que ficou em uma cela com vários homens, no Pará!).

Não tinham ainda passagem pela polícia; informação passada logo depois. Apenas dois têm mais de 18 anos, os outros são menores, inclusive duas meninas que participaram do assalto.

Foram para a delegacia com menos de cem pratas, dois ou três celulares e pagaram o mico de tomar beliscões das mães, ainda na calçada. ”Iniciantes”, pensei, moleques com um futuro pouco encorajador e um presente perigoso.

As mães encostadas no muro do prédio esperam, há pouco o que fazer. Em volta, apenas curiosos e o pessoal da imprensa, uns poucos gatos pingados. Uma delas, atrapalhada com microfones, responde que não sabe o que houve.
- Meu menino anda diferente. A mãe sabe quando um filho está diferente...

Fala enquanto chora, e ouve a próxima pergunta.
- Diferente como?
A mulher suspira, e em menos de um segundo ouve a próxima.
- Não comia em casa? Não dormia em casa? Ele estava estranho?
- Não. Ele... Ah, não consigo.

Chega outro repórter e pergunta se a mulher era parente de algum dos garotos. Ela tem vergonha, olha para baixo.

Os adolescentes, antes à vontade, apressam-se em cobrir os rostos para as câmeras de TV que surgem no corredor. Conversam, cochicham entre si, forçando a testa contra a parede, um clichê que eles devem ter aprendido com as milhares de vezes que viram isso na TV.

Talvez no dia seguinte estejam nas páginas policiais de um jornal qualquer, talvez não. Pode surgir uma notícia mais forte, um assalto a banco ou algo melhor, quem sabe uma chacina? Mas se não rolar nada vai ser esse mesmo. GANGUE DO ÔNIBUS ACABA NO XADREZ

Arma, bandidos, celulares e dinheiro. Isso basta, está armada a lona, deixa o circo pegar fogo.
- Era um menino bom, me respeita em casa, é evangélico. Ele não vai mais fazer isso.

A mãe tem sincera esperança nas palavras e o coração despedaçado. Agarra a grade com mão e olha uma vez mais para dentro. Na porta, policiais conversam relaxados, indiferentes à sua tristeza. Na verdade, alguns deles como alguns jornalistas, podem até pensar no sofrimento dessa mãe.

Ela ainda vai tentar “consertar” o menino ou a menina – um bom “puxão de orelhas” pode ser redentor nesses casos. Mas ninguém mais se ilude nesse campo no Brasil. Claro, com tantos crimes cometidos por jovens! O ruim mesmo é que fora essa desilusão restam poucas, raras alternativas capazes de resgatar esses brasileiros perdidos. Restam as mães que ainda esperam os filhos voltarem para casa.

domingo, 6 de março de 2011

Fantasia e realidade




Em busca do texto perfeito, ele insiste em dedilhar o teclado. Sabendo de antemão que ao final das frases restará uma sensação desagradável. Quase sempre fica insatisfeito. Nada além de uma idéia não terminada ou mal escrita. Quer uma boa história, com picardia, humor, paixão. "Mas um ser tão impregnado das `coisas`, desse nosso tempo jamais pode escrever algo assim", auto-censurou-se. "Preciso me libertar da concepção adquirida no trabalho acerca do ofício de escrever. Livrar-me dos desejos, crenças e formalidades arraigadas em minha personalidade. Mas me falta coragem, aproach (estou contaminado por um certo colonialismo cultural e suspeito ser essa uma das causas do meu fracasso como pensador). Resisto à idéia de desistir. Mas estou ficando desesperançado, pois a cada dia recomeço as frases e logo sou levado a interromper."

Enquanto ele se queixava, ela abriu a porta do quarto e perguntou. – Vamos? Sem disfarçar o aborrecimento ele desvia o olhar para o chão, exprimindo cansaço.

– Ainda não terminei.
-Nem vai terminar, querido, porque são oito e meia e a festa é às nove. Sabe como Alice é pontual e nota quando alguém se atrasa nas festas de aniversário das filhas. Ainda mais sendo aniversário da Júlia, vc sabe...

Ela continuou a falar , enquanto ele permaneceu imerso em pensamentos sobre a dificuldade de conciliar a mente etérea e fluida com os compromissos terrenos.

No chuveiro, ele pegou o sabonete e começou a se esfregar vagarosamente. O artigo era para segunda feira. Teria ainda o domingo para terminar. Quem sabe amanhã teria uma boa idéia, aproveitaria uma notícia de jornal, acharia um gancho para o texto.

- Onde estão as meias limpas?
- Não sei, acho que no armário, na terceira gaveta.

Vestiu a roupa, ajeitou o cabelo, a mulher já pronta, as crianças no carro. Foram para a festa de aniversário.

Barulho de apitos, Karaokê, piscina de bolinhas, a mesa decorada com figuras de uma conhecida heroína infantil. "Bacana, de qualquer forma é bom se distrair um pouco", pensou. De ruim, apenas as conversas inevitáveis com cunhados, amigos dos cunhados, carros, futebol, e piadinhas de mau gosto sobre mulheres, pretos e viados. O de sempre. No meio do salão, uma bela jovem se incumbia de brincar com a criançada. De vez em quando pegavam um adulto para cristo e o colocavam no meio da roda. Ele procurou um lugar de difícil acesso, a cadeira mais escondida da última mesa, perto da cortina. Ali estaria seguro.

Mas cismaram com ele. Foram até lá e o trouxeram pela mão, todo sem jeito, para a brincadeira. Teve que dançar um bolero com a mãe da aniversariante, e até que não foi tão ruim. Lembrou-se de Nelson Rodrigues, dos desejos inconfessáveis que surgem nas horas mais impróprias. Aquele corpo... estava com as mãos nas costas mais lindas que já tinha tocado. Agora a ocasião permitia. Dançaram até o fim da música, e ele teve a sensação de que ela demorou-se um pouco a desfazer a posição em que ficaram por longos e gostosos minutos. Não foi tão ruim, pelo contrário e ele voltou a se sentar com o humor refeito. Bebeu um gole de cerveja, comentou com a sogra que há tempos não dançava, e que estava feliz com a performance.

De repente, lá fora, um carro da polícia chama a atenção dos convidados. Uma criança morreu durante uma troca de tiros entre bandidos, e a polícia veio avisar a mãe. A mulher, de cinqüenta e poucos anos, saiu arrasada. Trabalhava como doméstica na casa de uma convidada e estava ajudando na festa. Segundo a Polícia Militar, Bruna de Castro Souza, de 12 anos, foi baleada na cabeça e no pescoço. A garota ainda foi socorrida, mas já chegou morta ao hospital. Muito abalada, a família disse que a menina tinha saído de casa para comprar um doce, e acabou sendo ferida no tiroteio. De acordo com a PM, a menina tentou fugir de uma briga de gangues que disputam o tráfico de drogas no local.

Ele perdeu o humor, mas conseguiu o tema para o artigo. Não, não precisaria mais do texto perfeito, esse podia esperar. Iria falar agora de algo mais urgente. O clima de guerra civil num país desigual e corrupto. O trivial do jornalismo. O tipo de assunto que vende e desperta comoção. Outro dia, talvez, iria se sentar para escrever o texto almejado. Quando pudesse falar do quanto desejou àquela mulher com quem dançou o bolero. Quando pudesse sentir a verdade saindo da alma e não tivesse vergonha ou medo. Quando fosse humano o suficiente para errar e deixar pistas. Quando deixasse de lado a dissimulação e os artifícios baratos para satisfazer a família, a empresa, os amigos. Quando estivesse com o coração limpo, mesmo correndo riscos. Como a menina que morreu a caminho do bar, onde iria comprar um doce.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Linhas cruzadas



Celso discute em altos brados com a mulher, Laura. Ela duvida da fidelidade do marido e suas suspeitas aumentaram depois da última noite, quando ele chegou tarde, “com a roupa cheirando a cigarro e perfume barato”, as últimas palavras dela antes do telefone tocar. Celso atende.
- Alô?
- Celso?
- Ele!
- É Oscar, gerente do banco.

Celso faz uma careta, costuma fazer expressão de dor nessas ocasiões, coisa que sempre diverte Laura, mas dessa vez ela não moveu um músculo sequer do rosto. Ele começa a conversa: “Oi, tudo bem?” Mas logo diz “um minuto só” e larga o telefone para atender ao celular, que também toca.
- Alô.
- Celso, é Mauro. E aí, cara deu merda?

Ele larga o telefone assim que escuta outra insinuação da mulher.
- Eu sei muito bem o que você foi fazer lá...Você e aquele seu amigo que nem gosto de falar o nome...
- Mauro...
- Esse mesmo. Cadê ele? Por que você acompanha esse tipo de pessoa? Esse babaca é um irresponsável, Celso, é por isso que a Telma está quase separada dele!

Celso esquece os telefones, celular e fixo, senta no sofá, passa as mãos pela cabeça, respira fundo e começa a falar calmamente, em voz baixa e tom ameno.
- Eu já disse a você que não, não aconteceu nenhuma sacanagem nessa maldita festa. Eu não sei como a Telma e o Mauro estão, não os vi ontem e repito: só passei lá porque o pessoal insistiu muito, e queria ver a tia Lourdes, estava com saudades e ela ficaria sentida se eu não fosse. Aliás, nunca mais falei com o Mauro depois daquele dia em que estávamos todos lá, na casa dela. Quando foi mesmo?
- Olha, não vem com esse papo, essa conversinha mole que eu não vou cair não, tá? E tem mais, estou sabendo que a Mônica e a Marluce estavam na tal festinha de ontem. A Telma já tinha me alertado sobre essas piranhas!
- Você está completamente doida!

Celso praticamente ignora a última acusação e, com uma distinção britânica, pega o telefone celular de volta.
- Pode falar Oscar, o que você quer?
- É o Mauro, cara.

Ele se encolhe e tapa a boca com uma das mãos ao falar baixinho, mas com energia:
- Nossa! Dá um tempo aí, pô! Mas não desliga não, já falo contigo.

Joga o celular no sofá e pega o fixo.
- Alô, João Paulo, pode falar.
- Não é João Paulo, é Oscar.
Ah...desculpe, Oscar.

E se fazendo de esquecido, pergunta:
- Sobre o que falávamos?
- Sua conta está estourada.

A mulher solta outro impropério, lá do banheiro, tão alto que até o gerente do banco e o Mauro ouviram. Celso esquece os telefones e vai até o meio da sala.
- Por que não diz logo quem foi que me envenenou com você, Laura?
- Ninguém me disse não. Dá para ver na sua cara!

Celso sabia que ela falava assim para jogar um verde, desequilibrá-lo, arrancar uma confissão ou quase isso. Lembrava de quando chegou tarde do futebol por causa de uma esticadinha no churrasco da república das meninas e de tanto ela dizer que estava “na cara que ele tinha aprontado” acabou dizendo que sim, que tinha ido a um churrasco e tinha mulher lá, mas não se engraçou com ninguém porque era casado, amava a família e tal e essas coisas. Na verdade, nesse dia ficou tão bêbado que depois de certo tempo mal conseguia conversar na festa. “Dessa vez não serei tão ingênuo”, pensou.

Celso pega o telefone celular. Na verdade, começa a ficar meio atordoado.
- Ainda bem que você não desligou. Minha mulher está muito, muito desconfiada. Mas eu não posso cair...a coisa já não está boa, devendo no banco e tudo. Como é que eu vou para um hotel ou coisa parecida? Vou morrer na sarjeta!

A ligação é ruim. Ele nem ouve quem está do outro lado e fala sem parar.
- Quer dizer... não aconteceu quase nada, ficamos conversando, dei uma alisadinha nas coxas dela. Rapaz, que espetáculo! Mas não passou disso, sabe? Bem, depois que você saiu o bicho pegou, mas não tinha mais ninguém lá. Só eu, o Marcos e as garotas, certo? Olha, vou desligar. Minha mulher pode aparecer a qualquer momento.

Desliga e pega o telefone fixo.
- Oscar! Vou ver o que consigo para cobrir isso aí.
- Celso, acho melhor eu ligar em outra hora. Melhor, liga você para mim. Bateram alguns cheques na sua conta e o limite do especial estourou, é preciso cobrir. Mas pelo jeito, você tem algo mais urgente pra resolver.

Telma, que tinha pego o celular do Mauro por acaso e ouviu a história toda, a essa altura discava para o celular de Laura.

(*) Jornalista