terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tempo




Ponto de partida: parte baixa da cidade, nos pés de uma colina suave. Um aglomerado de árvores e casas onde começa a estrada da lajinha. É por ela que vou começar uma corrida a fim de fazer um pouco de exercício nesses dias quentes e chuvosos de verão.

Desço correndo a rua de paralelepípedos - uma descida empinada que faz vibrar os ossos a cada pisada forte com meu tênis 40 e uma meia sem elástico. As bochechas vibram também com o impacto daquilo.

Chego enfim à esquina e viro para outra rua que desce (agora uma descida suave). Um jardim plano e imenso apresenta-se aos poucos enquanto me desloco. Á medida em que me movo, o olhar penetra em silhuetas, fendas, ocasos luminosos e aparições rápidas de seres que não posso distinguir direito agora pois quase bato em alguma coisa que surge na minha frente.

Na verdade era uma carroça, ou melhor um cavalo - pois ele puxa a carroça e portanto vem primeiro. O carroceiro era um cara gente boa e tirou um pouco o cavalo da trajetória.no momento em que busquei a parte de cima da calçada estreita e mantive o caminho até a Lajinha.

Chego então à margem do rio, um pedaço que banha a parte baixa da cidade. Há bancos e sombras em volta de mangueiras à noite procuradas por casais que ali podem namorar por horas. Uma espécie de refúgio onde também ficam andarilhos, pescadores e outros seres solitários.

Depois de 10, 15 minutos de corrida geralmente fico cansado. As pernas começam a doer e uma delas especialmente. Não lembro qual. Em algumas vezes chego a parar de correr e volto para casa. Noutras posso continuar o exercício. A dor passa. Estou agora numa estrada de terra.

O exercício se torna mais árduo com a poeira dos carros. Incomoda quando passam com as pessoas olhando para a gente. Devem pensar: que faz este aí correndo? As moças olham e depois se viram sorrindo. É bom. Os mais velhos ficam de cara fechada. Pode ser a poeira no rosto. Era um fusca antigo e empoeirado lotado de gente. Para andar ali é ótimo.

Os pulmões agora estão contra minha vontade de continuar a tarefa até o final. O ar é pouco e o sol está forte. Completamente molhado de suor forço a barra e continuo marchando sobre a terra dura. Bois, bezerros, bichos com chifres e sem chifres, grandes, médios e pequenos comem o pasto.

Um cheiro de estrume fresco fica no ar quente do verão dessa roça. E eu ali correndo. Diminuo então o ritmo, estou a cem metros do rebanho espalhado entre morros de cupins, numerosos nessa região e que se misturam aos vales e planícies do lugar. Passo devagar entre esses animais que tem o estranho hábito de ficar mascando grama e olhando fixamente para a gente.

Escuto o marulhar da água lá embaixo. São uns oitocentos metros até o final. Há uma ponte depois de uma curva à esquerda. É a ponte onde antigamente se fazia o caminho até a Varginha. Depois da estrada nova ficou conhecida como Ponte Velha. O nome é apropriado.

Não tem as proteções laterais em alguns pontos. Dizem que por ali passaram automóveis e caminhões que despencaram rio abaixo. O vento que sopra entre as árvores e chega em rajadas- o que também colabora para tornar tudo ainda mais bucólico.

O rio passa caudaloso embaixo lambendo as pedras eternas de seu leito. Acompanho com o olhar o rio até sumir no horizonte alaranjado e o ponto onde preciso desviar-me do reflexo dos raios do sol na água.

Fim de corrida, ando em passos lentos. Satisfeito com a viagem busco a sombra. Sentado na grama, descalço, procuro quase não pensar. Apenas tenho a sensação de que vivi mais em 20 minutos que alguns dias, talvez meses da minha vida.

Não apenas pelo exercício e seus benefícios. Mas pela idéia de que o tempo às vezes parece voar como tico-ticos, às vezes parar como a Lajinha. E nós não temos o menor controle sobre isso. Tanto tempo falta e tanto tempo sobra...E a vida aí para ser vivida - 2010 que o diga.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A arte imita a história



Um tanto entediado pelo noticiário farto e cansativo, vasculho a internet – não em busca de novidades, mas para bisbilhotar a vida de personagens históricos. Escolho Tiradentes, talvez o nome mais facilmente lembrado entre as figuras brasileiras, praticamente um herói nacional.

Joaquim José da Silva Xavier, figura que qualquer pessoa no Brasil que possa ler este Literário conhece, viveu em Vila Rica, hoje Ouro Preto, e inspira conversas que ficam ainda mais saborosas nas subidas e descidas da bela cidade mineira.

Em Ouro preto conspira-se o tempo todo. É algo que está nas ladeiras, nos telhados, na expressão de alguns anjos barrocos, nos malandros das esquinas, no olhar das mulheres, nos agitos noturnos das repúblicas, nos bares, em todo canto.

Basta dar asas à imaginação, puxar um pouco pela memória e começar a olhar em volta. O lugar onde a cabeça de Tiradentes ficou exposta por mais de dois anos por conspirar contra o império português está lá, agora, como monumento ao mártir. Em volta, tudo permanece: o casario, as igrejas, as pedras das ruas.

E um mistério ainda paira pelas ladeiras, por mais de dois séculos: onde foi parar a cabeça de Tiradentes? Dizem alguns que está na casa de Bernardo Guimarães, poeta e contista fascinado por Ouro Preto, onde nasceu, viveu e morreu no século XIX. É dele o conto “A cabeça de Tiradentes”, que como poucos escritos, descreve, esplendidamente o modo de vida na cidade durante o período em que foi capital da província de Minas Gerais.

Tempos de fartura, época em que o ouro era abundante e mexia com a vida de todos. Tanto que era comum as negras se enfeitarem para os festejos dando brilho aos cabelos com a poeira dourada que sobrava das lavras. “...e edificaram mais de um templo magnífico com as migalhas de seus senhores.’ A leitura de Guimarães – o Bernardo e não o João, é uma breve e divertida aula.

A abundância em Ouro Preto agora é coisa do passado. O centro histórico está bem conservado, mas a cidade cresce de forma desordenada na periferia – como quase todo município de porte médio do interior do Brasil. Dos tempos de capital da província e berço da Inconfidência, Ouro Preto ainda cultiva o gosto pela cultura e a pluralidade de pensamento.

Museu e cenário a céu aberto, Ouro Preto foi palco da encenação em praça pública do martírio de Tiradentes, coisa de alguns anos atrás – a data não sei ao certo, mas o que segue aconteceu de fato e quem quiser e puder que ajude nos comentários.

Bem, a tal peça foi encenada em comemoração ao dia da Inconfidência, 21 de abril, e o roteiro foi fiel à história. Depois do enforcamento no Rio de Janeiro as partes do corpo do alferes foram mandadas para várias partes da colônia. A cabeça veio para Ouro Preto. A réplica usada pelos atores também foi colocada no mesmo lugar onde, em 1792, estava a cabeça enfiada em uma estaca, método usado para intimidar quem ousasse conspirar contra a coroa portuguesa.

Conta Bernardo Guimarães que a cabeça ali ficou por 2 ou 3 anos. À medida que o tempo passava, diminuía o interesse e a perplexidade por aquele símbolo da mão forte da coroa sobre a colônia. Em uma noite em que só estava a caveira solitária a se debater com o vento, enquanto o sentinela dormia, eis que um gaiato a rouba e o guarda só tem tempo de ver o vulto sumir na esquina da rua das cabeças – situada logo acima da praça.

Sim, rua das cabeças, como mais uma vez ensina o conto: “...a origem desse nome sinistro vem de que aí se fincavam na ponta de estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos becos”. No alto da rua, diz-se que viveu um velho de vida reclusa e que, especula-se até hoje, seria o ladrão da cabeça verdadeira. Ao contrário das vizinhas, a casa onde viveu não ficou de pé para ajudar a contar a história.

Na peça, a cabeça feita de gesso também foi erguida na praça e ficou dia e noite sob a guarda de um sentinela. Não era ator, mas policial ou funcionário da prefeitura – não me lembro bem, mas isso não tem importância.

Ocorre que em um momento de descuido ou esquecimento mesmo, ninguém viu a cabeça sumir de novo! O caso gerou mal-estar, foram feitas investigações e buscas até a polícia encontrar um suspeito. No depoimento, o homem disse que não poderia mudar a história.

Como o personagem de Bernardo Guimarães, sabia onde estava a cabeça do mártir, mas não poderia dizer. E o caso foi encerrado sem que a cabeça falsa aparecesse. Assim como a verdadeira nunca apareceu.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Sobre chatos e vizinhos



Nos encontramos na esquina. Eu, a caminho do supermercado; ela, de volta. Ao passar por mim, a pequena senhora – com menos de metro e sessenta de altura e mais de 80 anos de idade, disse de novo: “A boca não pára, toda hora tem que comprar um trem!” O sotaque mineiro destacado na última sílaba.

Trem, que na verdade quer dizer outra coisa, quer dizer comida, basicamente. Víveres. “A boca não pára...”, completa ao passar por mim. Não consigo segurar o riso, o comentário da vizinha quebra o gelo da manhã sem graça. É como se dissesse: “É preciso fazer alguma coisa, precisamos sobreviver nesse mundo”.

Personagens de bairro, figuras que a gente vai se acostumando, pois sempre as encontramos naquela hora besta, quando estamos de calção e chinelo a caminho da padaria. Gente a quem não devemos satisfação alguma, mas que se dão ao trabalho de perguntar-nos: “Como vai?”

Mesmo mergulhados no mais absoluto mau-humor, esse tipo de comentário gratuito acaba por nos deixar mais leves, menos sisudos. Justamente no momento em que gostaríamos de passar incólumes, sem dar papo a ninguém.

Não podemos dizer o mesmo de outras situações e ambientes, como no trabalho, em casa ou na escola dos filhos. Nesses locais, nunca passamos despercebidos, e, no entanto, há dias em que faríamos de tudo para não sermos notados.

Existem vários motivos para essa reclusão voluntária. A chatice é um deles, em todas as suas nuances e variações de intensidade. Há os chatos que se aproximam da gente por interesse, por exemplo, gente que acha que pode ser dar bem a todo instante, como se isso fosse possível.

Esses geralmente estão no ambiente de trabalho. Acham que qualquer situação é oportuna para “ganhar uns pontinhos”, mostrar serviço, “assinar” determinada atitude, frase, ação, ou algo que lhe renda um “Puxa, que bom”, dito por alguém hierarquicamente superior. São os famosos e onipresentes puxa-sacos.

Tem gente que é chata mesmo, já nasce assim. Esse tipo de chato costuma ser da família ou é amigo, algum amigo próximo, e a gente praticamente é obrigado a conviver com eles. São “de casa”, não se incomodam de levar um corte, e mesmo ignorados permanecem onde sempre estiveram, por total falta de mobilidade social. Malas, enfim.

Finalmente chegamos aos chatos da escola dos filhos. Poderia ser aquele recreador mais animadinho ou a professora feia com ar de rigorosa – mas geralmente são os pais dos outros alunos. E o momento máximo da chatice na escola dos filhos acontece em ocasiões especiais, como o Dia dos Pais. Tudo bem, é legal estar ali com os pimpolhos e tudo, mas sempre tem aquele mico...

Não, não é o mico o chato em questão, nem a brincadeira em que você coloca um saco na cabeça e esbarra em todo mundo antes de encontrar o garoto. Essa até que é divertida. Duro mesmo é ter que conversar com gente que você não conhece (geralmente pessoas bastante diferentes de você), sobre assuntos que não lhe interessam (normalmente carro, futebol ou religião) , em um dia em que você poderia estar fazendo outra coisa, como um churrasco, por exemplo.

Mas a vida é assim, e temos que cumprir a agenda. Afinal, como diz a senhorinha que cruza comigo (ops) quase todo dia na esquina, “a fila tem que andar”. Nas palavras dela: “A boca não pára e toda hora tem um trem para comprar”.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O falso perfeito



Certa vez um vizinho disse estar satisfeito simplesmente por respirar. “Acordo e quando percebo que estou vivo, agradeço a Deus. O resto é lucro”. Assim como eu, ele tem filhos e obrigações como: pagar escola, aluguel, supermercado, farmácia.

Além disso, deve se preocupar com o futuro das crianças, todo pai se preocupa com os filhos. Daí ter as mesmas dificuldades que milhares de pessoas, mas... por quê ele não se queixa?

Também gostaria muito de chegar a esse estado de satisfação, completude, convencer-me de que está tudo bem, a vida é boa e que qualquer coisa diferente de estar feliz por estar vivo é frescura ou coisa que o valha.

Fiquei a pensar como seria a vida desse meu vizinho. Como só o vejo nos finais de semana, a imagem que fica é a de sujeito boa praça, sem maiores vaidades e que sabe levar as coisas sem ficar a se aborrecer à toa. Mas quem deve saber mesmo é a mulher dele, os filhos e amigos próximos.

Eu também acho uma boa estar vivo e acredito que é melhor viver sem complicar muito. Ficar reclamando o tempo todo só torna tudo pior, embora em alguns casos seja necessário. Afinal, fechar os olhos para todos os problemas não é sinal de sabedoria; é fuga ou, no mínimo, displicência.

No extremo oposto desse meu vizinho existe outra categoria de pessoas que implicam com tudo. Com esse tipo de gente não há acordo, é tolerância zero. A menos que o erro seja dele. Nesse caso, surge uma nova faceta, a do dissimulado.

Esse tipo quase perfeito, que prefiro chamar de ”falso perfeito”, geralmente é encontrado no local de trabalho. Ele se beneficia dessa espécie de hipocrisia corporativa existente em todo lugar onde há um chefe, um ou dois puxa-sacos, meia dúzia de iniciantes ambiciosos, uma secretária burra (com sorte, gostosa) e quatro ou cinco funcionários água com açúcar – daqueles que não interferem, servem apenas para formar quorum.

Essa composição é ideal para um “teatro do oprimido” tosco, recheado de insinuações, grosserias, teorias risíveis sobre jornalismo e outras baboseiras. Há quem fique profundamente impressionado, é o chamado assédio moral, do qual são vítimas os pobres diabos que morrem de medo de perder o emprego. A essa tarefa, os “falsos perfeitos” se entregam com prazer indisfarçável.

Mas nem todo dia é do caçador. Sempre chega o momento em que essas almas inseguras sofrem por não conseguirem camuflar as próprias limitações. Nessa hora cai a máscara, mas como o quintal é dele... pano rápido, nada acontece.

O falso perfeito também existe fora das empresas, mas tem as asinhas curtas. Quando não há interesse definido, cargo, salário ou posição, fica muito mais fácil distinguir sabedoria de babaquice – basta os interlocutores certos. Mas aí já é outra estória.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Respostas




Procurava por respostas e então consultei os monges. Descobri então a nobreza da virtude. Mas não aprendi como elevar-me acima da vida mundana. Sequer consegui livrar-me de alguns pequenos vícios, em mim impregnados como uma segunda pele. Forcei arrependimento, convencido que estava pelas palavras puras, e travei luta interna contra os pecados do corpo, da mente e da alma. Depois de um começo promissor, acabei de novo caindo em tentação. Ouvi: és um humano miserável, fraco e sem vontade.

Busquei então a companhia dos intelectuais, humanos como eu, mas donos de um pensamento sofisticado e símbolos da grandeza da raça. As palavras certas, no lugar certo poderiam inspirar-me e operar o milagre do renascimento. Mas tantas verdades ditas sem pudor quase me ferem de morte... Espantado, fugi, protegido justamente por minha humanidade falível e inconseqüente. Melhor não pensar, inferi, e de novo voltei às antigas perguntas.

Insatisfeito e melancólico, tive então a necessidade de proteção. Busquei-a nos poucos amigos, nos braços de gente próxima. Recebi carinho, recebi atenção. Mas quando abri meu coração por completo senti o diálogo se tornar um monólogo. Os braços que me envolviam se afastaram e, tal qual objeto decorativo, exemplo vivo de desgraça por ninguém desejada, colocado fui a um canto. E dos outros me tornei deplorável criatura, exemplo do que não ser. “Pare com isso!”, foram as últimas palavras que escutei antes de dar as costas e de novo partir.

Cansado, atordoado, fechei-me em pensamentos e chorei sozinho. O espelho se tornou ameaçador e insuportável. A alegria das crianças, o vôo dos pássaros, o caminhar distraído das moças, o zunir do vento nas árvores, o azul do céu, o marulhar das ondas, o balé dos peixes, o som das mais belas canções – nada me consolava.

Perdido fiquei a olhar o mundo pela janela. E não compreendia o sentido daquilo tudo, afinal. Respostas. Lentamente o silêncio foi preenchendo o vazio daquela manhã. E eu não desejava mais do que o silêncio naquele momento. E formulei uma pergunta diferente: Por que o silêncio em vez das respostas? Menos confuso, menos triste, menos atordoado, ergui o corpo, fechei a janela e passei um café.

Olhei de novo minha imagem no espelho e lembrei-me que nada é para sempre. Um dia, não sei quando, vou partir. Provavelmente sem ter a menor idéia do destino. Quando esse dia chegar, estarei pronto, independente de ter sido preparado, mesmo contra a vontade, ainda que não compreenda o sentido. Nesse dia, possivelmente irei olhar para trás e ver que perdi muito tempo procurando explicações. Talvez não, mas aí isso realmente não terá mais tanta importância.

Do pó vieste e ao pó voltarás. A única certeza desse mundo, segundo os monges, intelectuais e pessoas como eu. Nesse dia acho que terei as respostas, sem muita complicação. Mas sendo assim não é preciso pressa. Nem para viver, nem para morrer. Se viver sem pressa de encontrar respostas, estarei dando um passo e tanto - nesse momento descobri. E agora, o caminho parece bem mais simples. Nem quero saber por quanto tempo. Essa resposta eu terei, todos teremos, de uma forma ou de outra, cedo ou tarde. Portanto, não importa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Reminiscências



Wish you were here. O som faz a imaginação viajar no passado... A música foi gravada na década de 70 pelo Pink Floyd, mas a lembrança que tenho é dos anos 80. Vivia cercado de amigos que tinham certeza de que tudo era para sempre: a amizade, o gosto pelas mesmas coisas, o tempo que tínhamos para viver.

Não importava o dia: segunda ou sábado, o estado de ânimo era sempre o mesmo, uma sensação boa de quem não quer perder um só minuto da vida. Nesse instante, senti algo parecido com auto-piedade. Estou apressado a caminho do trabalho, a bolsa e a cabeça cheia de compromissos, preocupações, prazos e metas a cumprir.

Os acordes da música me consolam. “So, so you think can tell...” A cidade ao redor em nada se parece com os lugares onde perambulávamos com passos decididos, o riso largo, cabelos longos, a mente tranqüila e o corpo esbanjando vigor.

Muda o som e ainda estou na metade do caminho. “Todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito”. O Barão Vermelho de Cazuza agora é o centro das atenções em minha cabeça preguiçosa.

Engraçado pensar que 20 anos depois de Wish you were here, “Pro dia nascer feliz”, de Frejat e Cazuza, estourava nas rádios e nos fazia sentir que sim, haveria rock brasileiro para ouvir depois de Raul Seixas e Rita Lee.

A novidade foi recebida com entusiasmo, mas passou. Tudo passa. Muitos amigos sumiram, assim como minha gana de acompanhar tudo o que sai na mídia sobre música. Perdeu um pouco a graça. Outro dia li uma matéria que tinha o Jota Quest e o Babado Novo falando de “pop-axé”. Não dá.

Não no meu ouvido. Estou atrasado, os ponteiros do relógio avançam sem dar trégua. Uma moça se levanta para descer do ônibus. É morena e tem os cabelos longos. O corpo bem feito, uns 18, 19 anos, talvez. Um instante de atração física se passou até que lembrei da minha filha. Não que tenha ficado com remorso ou constrangido, afinal olhar não tira pedaço.

Lembrei de minha filhota de 12 anos porque em pouco tempo ela vai ter a idade que eu tinha quando curtia Pink Floyd e Barão Vermelho, entre outros tantos sons. E vai ter sentimentos parecidos, claro, à maneira dela. E depois dela virá meu filho, que hoje tem 7 anos.

A garota gosta de música para dançar – inclusive axé, para leve desgosto do pai. E o garoto eu ainda não sei. Por enquanto, diz que torce para o Fluminense (não sei se para me agradar). Quando chegar o dia deles lamentarem as novidades que substituem coisas muito melhores (como é o caso das bandas de rock de hoje em relação às de ontem) talvez eu seja apenas uma lembrança. Mas isso ainda vai demorar, espero.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Corrida de obstáculos



Enfiou a chave com cuidado... Girou para a esquerda de mansinho, assim e a cada estalo mínimo que saía de dentro do tambor fazia uma careta. “Seis da manhã, Romualdo. Dessa vez tu exagerou irmão”, pensava. Quanto finalmente conseguiu entrar deu de cara com o relógio que marca: Seis e dez! “Quase acertei”.

Um domingo que já se anunciava de sol, desses de gente na rua, crianças em bicicletas e senhores de moleton fazendo caminhada. Mas para o Romualdo, com aquela cara de ontem e bafo de bebida, não ia dar.

Tudo bem. "Foi só para extravasar um pouco. Não peguei ninguém – mas até que rolou uma troca de olhares, ora com a mulata generosa que insistia em me reparar, ora com o cara que estava com ela, que ficava vigiando o bar inteiro! Esse sim eu diria que não pegou nada mesmo”, Romualdo feito retardado ficava formulando meio que os melhores momentos da madrugada na cabeça.

O ruim vai ser explicar para a mulher que não tinha passado disso mesmo. Claro que a história que ele ia contar não era bem essa mas pelo menos já tinha um roteiro inicial e... a merda é que elas nunca acreditam. Bom, é melhor tirar essa mesinha da frente, que o passo ainda não está firme...

Beleza, missão cumprida. Agora é só...Deus! O abajur...Como irá fazer para se desviar desse objeto infeliz que fica no caminho para o banheiro? É um corredor muito estreito, e ele terá que ser percorrido com extremo equilíbrio e responsabilidade, porque logo depois tem o aparador e aquele monte de porta-retratos.

Calma, calma. Devagar, assim, devagarinho...está quase lá. Pronto, enfim o banheiro. Ué...todo arrumado, parece que ninguém usa isso há séculos! Nem toalha tem aqui, gente. Cadê o papel higiênico? E essa cueca?

Cueca? De quem é essa cueca suja e desbotada? Romualdo fica doido. Indignado. Sente uma pontada no peito. Amedrontado, solta um berro: Marta! Marta! De quem é isso aqui? Marta! Marta! Ninguém responde. O que está acontecendo?!

Romualdo, meio zonzo, saiu do banheiro. Agora, não sentiu vontade de seguir as regras desse código subliminar que rege as relações humanas, amorosas e não-amorosas, mas que incluem o interesse comum por algo que não tem como ser regido por um, apenas por dois.

Sem cerimônia e nenhum cuidado esbarrou no aparador, derrubou o porta-retratos, quebrou o abajur, quase chorou de dor ao bater a canela na mesinha da sala e com muita dificuldade abriu a porta do quarto de casal. Não havia ninguém em casa.

“Essa ingrata está mesmo me traindo”. Um pensamento piegas o pegou de surpresa e, com a certeza que só os cornos têm, procurou pelo celular que passara a noite toda desligado e ligou, ligou e ligou. Infelizmente, só uma gravação respondia: “Este celular está fora da área de cobertura ou desligado”.

“Tu, tu, tu, tu”. Pela quinta vez ouvia aquele som de telefone ocupado que sempre toca depois da mensagem de “Esse telefone está fora da área de cobertura ou desligado".Iria atrás dessa mulher ou deveria, quem sabe se resignar?

Será que ela o traía há muito tempo e ele sequer suspeitou?. Claro! Aquele jeito de mulher dedicada e ao mesmo tempo um furacão na cama, era tudo para deixá-lo maluco de amor e cego de confiança.

Se não fosse essa a última vez haveria uma outra, quando seria a próxima? E ele acreditando que aquela torta fantástica dos finais de semana e feriados era para feita para Romualdo. Tolo, idiota, cafajeste de quinta categoria. Idiota. Puta que o pariu!

Calçou de novo os sapatos, e nervoso mal conseguiu dar nós nos cadarços. Assim, meio sem voz, Romualdo voltou para a rua. Pegou um táxi e se mandou para a casa da sogra.

Acordou a velha com uma insistente campainha às sete da manhã e disparou:

- Cadê sua filha?

‘Eu é que sei? A mulher é sua”, respondeu a senhora.

- Não é mais minha mulher, é só filha sua. Mas como ela não está aqui?

- Não está, ora... O que houve Romualdo?

- Nada, não houve nada.

E saiu de novo, antes que a dona Rosinha terminasse de lhe oferecer um café, essas coisas. Faminto, agora andava já sem dinheiro para o táxi e decidiu ir até o ponto de ônibus. “Ela não podia ter feito isso”, pensava mas sem tempo de terminar porque tomou um puxão de lado. Alguém segura a sua mão com força por trás.

Vira-se para ver uma cigana de vestido florido e sorriso desdentado, embora com dois ou três dentões de ouro, outro que parece prata mas de repente é obturação antiga...ela pede para ler sua mão. Transtornado ele deixa, pela primeira vez na vida – já que não acreditava nesse tipo de coisa.

A dupla vai até a escadaria de um prédio e, no cantinho perto da planta que decora a entrada a cigana começa, sob o olhar preguiçoso do porteiro, que assiste à cena da mesinha atrás do vidro:

- Você está sofrendo...
- Sim, sim, estou.
- É dor de amor.
- Como sabe?
- Marianita tudo sabe.

Ele não quer ouvir mais nada. Tira os cinco reais que lhe restam no bolso e entrega para a mulher.

Resolve voltar à pé para casa. Não se conforma. Súbito, tem uma idéia. Talvez ainda exista uma chance. “Não vou perder minha mulher assim, fácil. Ainda resta o cartão de crédito”, agora liberado pela operadora depois dele ter suado sangue para pagar a fatura do mês passado.

Entra na joalheria e escolhe um par de brincos de ouro – o mais bonito da vitrine. Quase dois mil reais. “Tomara que funcione, nem sei como vai ser se ela me trocar por aquele infeliz da cueca”, pensou.

Chega em casa, todo suado. Abre a porta e Marta está na sala, com a cara amarrada. Ele não diz nada antes de estender o presente com as mãos, como um menino.

- Olha, é para você.

Ela pega o presente, abre, e um sorriso se abre, seguido de um abraço carinhoso. Marta vai logo experimentar, e volta do quarto radiante com o brinco na orelha.

- É lindo, amor.

Ele, meio confuso, mas feliz da vida, diz sem jeito:

- Você merece muito mais.

Ela senta no sofá e diz para ele que na noite passada nem esperou ele chegar. Teve que sair, por volta das 21 horas, para acompanhar uma amiga até a Santa Casa. Esquecera de levar o celular, até porque nem ia adiantar. Estava completamente sem bateria.

- A mãe dela teve um AVC e a minha amiga, a Suzana, lembra? - Ele faz um gesto afirmativo com a cabeça. Marta continua:

- Pois, é, ela estava muito deprimida, e me pediu para acompanhá-la... Fiz companhia para ela a noite toda. Estou um caco e agora posso finalmente dormir um pouco. Espero que não fique chateado, mas pouco antes de sair dei uma faxina na casa e usei uma cueca sua para limpar o banheiro. Está toda manchada de água sanitária, além de ter acumulado sujeira do chão, das paredes... É melhor jogar fora.